Quando Novembro Chega: A Graça Que Me Sustenta na Noite Escura
Há meses do ano que parecem carregar um peso próprio.
Para mim, novembro, dezembro e janeiro são exatamente assim — como se tivessem
um cheiro, uma cor, uma memória que antecede a própria memória.
Eles chegam, e o meu coração reage antes da minha razão.
É como se algo dentro de mim dissesse: “Eu lembro…”
Foram nesses meses que vivi algumas das dores mais profundas da minha
história.
Perdas que vieram rápido, de maneira brusca, inesperada, injusta. Perdi dois
primos em um acidente. Um se foi no local, o outro no hospital — onde deveria
ter sido cuidado. Perdi também uma sobrinha grávida, que lutou contra uma
anemia ignorada. Foram dores marcadas por negligência e silêncio, e talvez por
isso doam de um jeito tão diferente.
Essas histórias me visitam todos os anos.
E por muito tempo eu achei que isso fosse fraqueza.
Mas não é.
É a alma lembrando o que o corpo não esqueceu.
E foi lendo “A Noite Escura”, de João da Cruz, que comecei a
compreender algo que nunca consegui colocar em palavras: existem dores que não
passam simplesmente porque “já faz tempo”. Existem perdas que se tornam uma
noite interna — não uma noite sem Deus, mas uma noite com Deus, onde Ele
trabalha no silêncio, no profundo, no invisível.
João da Cruz diz que, na noite escura, Deus purifica o amor.
Ele retira o que é apoio falso, o que é segurança ilusória, o que é controle… e
nos convida a caminhar por fé, não por sensação. Não porque Ele deseja que
soframos, mas porque deseja que amadureçamos.
E é exatamente isso que sinto nesses meses:
um amadurecimento que dói, mas que me aproxima.
Quando novembro chega, meu coração se aperta porque lembra:
dos telefonemas,
da pressa,
do susto,
do hospital,
da despedida que não consegui dar,
do momento em que eu estava doente e não pude ir,
da conversa que não aconteceu.
Mas, como João da Cruz diz, “a noite é passagem, não destino”.
E essa frase se tornou um abrigo para mim.
Hoje, quando o calendário vira e a ansiedade tenta tomar lugar, eu me
lembro:
Deus estava lá quando eu perdi.
Deus estava lá quando eu chorei.
Deus estava lá quando ninguém sabia o que dizer.
Deus estava lá quando a morte chegou sem pedir licença.
E Deus está aqui agora, segurando o meu coração com a mesma firmeza mansa de
sempre.
Meu medo pelos meus pais e irmãos, que vivem em Moçambique — onde tantos
acidentes acontecem nessa época do ano — ainda existe. Mas já não manda em mim.
Aprendo, devagar, a descansar no único lugar onde realmente há descanso:
nos braços dAquele que não perde ninguém, não se distrai, não negligencia,
não dorme.
A noite existe.
A dor existe.
A saudade existe.
Mas também existe uma promessa:
“Mesmo a escuridão não é escura para Ti;
a noite brilha como o dia.”
— Salmo 139:12
E é nela que eu descanso.
Porque o Deus que atravessou comigo os piores meses da minha vida
é o mesmo que atravessará os próximos.
E, na mansa graça dEle, até a noite tem luz.
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