Cartas entre o mar e a distância


Um conto sobre um amor que nasce entre o mar e a distância

Há amores que não se sustentam no toque, mas na palavra. Para Sara e Lucas, as cartas eram mais do que papel: eram pontes lançadas sobre a distância, âncoras contra o esquecimento e promessas que resistiam ao tempo. Sara, uma jovem de olhos curiosos e coração inquieto. Ela escrevia cartas não por obrigação, mas por amor. Amor pelas palavras, pelos silêncios que elas podiam preencher, e por Lucas, o rapaz que lhe prometera voltar.

Conheceram-se nas tardes empoeiradas junto ao cais de pesca. Sara lia romances emprestados, sentada num banco antigo de madeira. Lucas ajudava o pai no trabalho e, sempre que passava por ela, lançava provocações suaves:

— Estás no mundo dos livros ou vais olhar para mim hoje? — Perguntou Lucas.
— Olhar-te? Prefiro imaginar-te — nos livros, posso mudar o final— Disse Sara.
— E se eu te dissesse que quero ser o teu próximo capítulo? — Perguntou Lucas.
— Então escreve com cuidado, Lucas. Sou feita de vírgulas mal resolvidas. Disse Sara

Certa tarde, Lucas aproximou-se com um peixe na mão e um olhar mais demorado:

— Se eu te der o peixe mais bonito do dia, ganhas coragem para tomar um café comigo?
— Se prometeres que me deixas escolher o lugar e a história, talvez— Respondeu Sara.
— A história és tu quem escreve. Eu só quero estar nela— Disse Lucas

Riam-se, trocavam promessas veladas no vento. Ele ofereceu-lhe uma pulseira feita com corda de rede de pesca. Ela deu-lhe um bilhete com uma frase sublinhada de um livro:

O amor que se escreve, nunca se apaga.

Quando Lucas partiu para a cidade em busca de trabalho, deixaram-se promessas escritas no vento e no papel.

Na véspera da viagem, ela chorava em silêncio na beira do mar. Ele chegou por trás, abraçou-a devagar:

— Hei-de voltar, disse o Lucas. Nem que seja com os pés descalços e os bolsos vazios, hei-de voltar.
— Promete que não me esqueces nem quando a cidade te oferecer luzes demais? — Perguntou Sara.
— Prometo lembrar até o som da tua gargalhada— Respondeu Lucas.
— E eu prometo escrever-te todos os dias mesmo que o correio se canse de mim — Disse Sara.

Durante dois anos, as cartas foram o fio invisível que os unia. Sara descrevia o mar, as festas do vilarejo, o cheiro da roupa recém-lavada.

Disse Sara:

“Hoje pintei o quarto com a cor da esperança. Não sei se gosto da cor ou do nome. Lucas, mãe pergunta por ti. Diz que nunca viu um rapaz tão bom de conversa e de mãos honestas”.

Lucas respondia:

“Ontem vi um casal a dançar no mercado. Ela tinha o teu sorriso e ele parecia-me quando estou contigo. Senti saudades tão fortes que doeram. Trabalho demais, mas o teu nome salva-me do cansaço. Escrevo-o nos intervalos do dia, só para respirar melhor”.

Até que, um dia, as cartas deixaram de chegar.

Sara esperava. Todos os fins de tarde, sentava-se no mesmo banco, com os olhos na estrada poeirenta por onde o carteiro passava. Mas o tempo corria e o silêncio se tornava mais pesado do que qualquer palavra esquecida.

Mesmo assim, ela continuava a escrever. Guardava as cartas numa caixa talhada por Lucas antes da partida. Escrevia sobre as flores que colhia, o vestido novo costurado pela mãe, o céu nos dias de vento. E sobre o vazio que crescia dentro dela.

Os vizinhos murmuravam:

Talvez tenha mudado de morada… ou de namorada.
Ou talvez esteja só cansado demais para escrever.
A cidade muda as pessoas.

Mas Sara dizia em voz baixa, à beira-mar:

Quem escreve com alma não desaparece sem deixar vestígios.

Mesmo assim, continuava a escrever. Escrevia para manter viva a parte dela que ainda esperava.

“Hoje sonhei contigo. Estavas sentado na varanda a desenhar peixes no meu caderno. Sinto tua falta como se me faltasse um pedaço do céu”.

Certa vez, amiga da Sara disse-lhe:

Sara, quem escreve ao vento corre o risco de ficar sem resposta.
Mas ela respondeu, firme:

E quem cala o coração corre o risco de nunca ser encontrado.

Até que, numa manhã serena, chegou uma carta. Não era de Lucas. Era de Vanessa, sua irmã.

Querida Sara,

Escrevo-te com o coração apertado e as mãos trêmulas. Lucas sofreu um acidente há três meses. Um carro o atingiu à saída do trabalho. Desde então, esteve mergulhado em silêncio, como se o tempo tivesse parado ao redor do seu corpo.

Há poucos dias, abriu os olhos. Acordou, mas ainda não fala. O olhar dele vaga como quem procura um lugar de repouso, ou talvez uma lembrança perdida no fundo da memória.

Entre os seus pertences, encontrei todas as tuas cartas, guardadas com um cuidado quase sagrado, como quem coleciona o sopro de uma vida. Entre as páginas, flores secas testemunhas silenciosas de um amor que resistiu ao tempo e à distância.

Achei que devias saber. Talvez a tua presença, talvez a tua voz, seja a ponte que o traga de volta. Se puderes, vem. Não há ciência que explique, mas acredito que há almas que só despertam quando ouvem o nome que as faz existir.

Ao terminar de ler, Sara levou as mãos ao peito. E disse:

Ele... ele leu cada palavra... Ele guardou tudo...

No hospital, Sara entrou com passos trémulos. Aproximou-se da cama. Lucas parecia perdido dentro do próprio corpo.

Ela sentou-se ao lado dele, segurou-lhe a mão, e sussurrou:

Se ainda me ouves, estou aqui. Trouxe as cartas. As que te enviei… e as que não tive coragem.

Ela começou a ler, uma por uma.
Na quarta carta, Lucas piscou.
Na sétima, lágrimas lhe escorreram.
Na décima, Lucas murmurou:

Sara…

Ela levou a mão ao rosto dele, e respondeu, entre soluços:

Eu esperei. E se fosse preciso, esperava mais.
Sabes o que me salvou? Disse Lucas, com a voz quebrada. Foi lembrar que tu ainda escrevias… que não tinhas desistido.
Nunca desisti de ti. Mesmo quando doíaRespondeu Sara.

A recuperação de Lucas foi lenta, mas cheia de momentos doces. Quando Lucas caminhou sem apoio pela primeira vez, virou-se para ela e disse:

Aprendi a andar duas vezes. Uma quando era menino. Outra agora, por ti.

Voltaram ao vilarejo e construíram a casa dos sonhos, com vista para o mar e paredes cheias de palavras.

No primeiro jantar, Sara deixou um bilhete sob o prato dele:

Se amanhã não acordares a meu lado, vou te escrever outra vez, só para lembrares que ainda sou tua.

Lucas respondeu no espelho, traçando letras trêmulas com o vapor da respiração:

Se um dia eu esquecer o teu nome, lembra-me com uma carta. Porque é nele que minha alma mora.

Dois anos depois, a vida impôs o seu peso. Lucas, que já lutava contra a fragilidade do corpo, teve uma recaída. Na última noite, descansava no colo de Sara, como quem encontra abrigo na eternidade. Ouviu a sua voz embargada, mas firme:

— Mesmo que o tempo nos roube os corpos, que nunca nos leve a alma. Escrevo-te com a esperança de que o amor viaje para onde as palavras não chegam— Disse Lucas.

E assim partiu, no silêncio que não apaga, mas transforma.

Desde então, Sara escreve. Todas as noites, sentada diante da janela que dá para o mar, coloca no papel pedaços de memória, súplicas de eternidade e sussurros que só os amantes conhecem. As cartas não têm destinatário. Ou talvez tenham: a infinitude.

Com gestos delicados, dobra-as, guarda-as em pequenas garrafas de vidro e lança-as ao oceano. Não importa se alguém as encontrará, porque o mar é o único cúmplice capaz de carregar segredos para além do horizonte.

Um dia, uma menina que a observava não conteve a curiosidade:

— Por que fazes isso, Sara? Perguntou a menina.

Sara sorriu com ternura, como quem guarda um enigma que não pode ser revelado em poucas palavras, e respondeu:

— Porque algumas cartas precisam continuar a viajar. E o amor verdadeiro merece navegar eternamente.

A menina insistiu, com olhos que ainda não conheciam o peso da ausência:

— Mas e se ninguém as ler?

Sara olhou o mar, vasto e insondável, e murmurou quase como uma prece, e disse:

— O amor não precisa de testemunhas. Ele precisa apenas de continuar. Se chegar a alguém, será destino. Se não chegar, será eternidade.

E assim, noite após noite, as ondas se tornam mensageiras. As garrafas desaparecem no infinito azul, como estrelas lançadas ao contrário, do coração para o abismo.

Quem sabe, em algum lugar distante, Lucas as recebe. Ou talvez sejam apenas sementes de memória, flutuando para que o mundo nunca esqueça que existe um amor que nem a morte consegue calar.

 

…Vou contar tudo…

 Sobre o autor

O poeta Afonso Patrício Sabão

Afonso Patrício Sabão, nascido a 13 de novembro de 2001, é natural da cidade de Nampula, Moçambique. Desde cedo, descobriu na palavra escrita um refúgio e uma forma de compreender o mundo. Iniciou a sua paixão pela escrita em 2017, através de pequenas cartas e anotações em blocos de notas, que mais tarde se transformaram em poemas, contos, crónicas e reflexões sobre a vida humana.

A sua escrita, marcada por sensibilidade poética e crítica social, dá voz às realidades silenciadas e às esperanças que persistem nas margens da sociedade. Entre as suas obras destacam-se Enquanto a Chama Ardia e As Cinzas de Cabo Delgado, textos que revelam a profundidade humana e o compromisso ético que caracterizam o seu universo literário.

Atualmente, é estudante finalista do curso de Licenciatura em Desenvolvimento Local e Relações Internacionais na Universidade Lúrio – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

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